{"id":893,"date":"2018-07-30T20:01:43","date_gmt":"2018-07-30T17:01:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.intothesquare.org\/?p=893"},"modified":"2024-04-26T22:58:02","modified_gmt":"2024-04-26T19:58:02","slug":"short-history","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.intothesquare.org\/pt\/2018\/project\/short-history\/","title":{"rendered":"<strong>Pra\u00e7as da Europae e as suas hist\u00f3rias<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria das pra\u00e7as europeias est\u00e1 ligada por um fio hist\u00f3rico cont\u00ednuo \u00e0 antiguidade grega, onde aparece a plateia e depois a \u00e1gora. A pra\u00e7a urbana \u00e9 espec\u00edfica da Europa, porque uma continuidade t\u00e3o longa n\u00e3o est\u00e1 presente em outras culturas, mesmo que nessas tamb\u00e9m haja pra\u00e7as, algumas mesmo muito grandes. A Europa inventou a pra\u00e7a, desenvolveu-a como forma arquitet\u00f3nica, para depois export\u00e1-la para todo o mundo, principalmente durante o per\u00edodo colonial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto nos seus prim\u00f3rdios a pra\u00e7a \u00e9 um simples alargamento da estrada principal da polis grega, com o tempo, ela adquire fun\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e religiosas e come\u00e7a a ser embelezada. Dos gregos, a pra\u00e7a \u00e9 assumida pelos arquitetos romanos, onde o f\u00f3rum \u00e9 fundamental na conce\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Ap\u00f3s a queda do Imp\u00e9rio Romano, a vida urbana recupera na Europa apenas por volta do ano 900, quando muitos dos burgos medievais se desenvolvem por cima dos antigos assentamentos romanos, mantendo o seu plano e esquema de ruas, com o f\u00f3rum transformado em pra\u00e7a central, tal como acontece em Zadar ou Porec, na costa d\u00e1lmata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qualquer cidade medieval, fotografada por um drone, permite-nos ver a oposi\u00e7\u00e3o fundamental entre a margem e o centro, porque as cidades medievais est\u00e3o sempre rodeadas por muralhas. Algumas, como \u00d3bidos, em Portugal, ainda mant\u00eam essas fortifica\u00e7\u00f5es intactas. A pra\u00e7a \u00e9 um espa\u00e7o amplo, opondo-se volumetricamente \u00e0s sempre estreitas e sinuosas ruas das cidades. Quase obrigatoriamente, na pra\u00e7a medieval h\u00e1 uma catedral e uma fonte. Para as pequenas cidades, o papel da fonte tamb\u00e9m \u00e9 funcional. Para as grandes cidades, o papel \u00e9 puramente est\u00e9tico, a presen\u00e7a da fonte na pra\u00e7a estando ligada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e ao ritual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A exist\u00eancia das muralhas teve algumas consequ\u00eancias importantes para as cidades de toda a Europa Ocidental. Em primeiro lugar, o espa\u00e7o limitado fez com que, durante s\u00e9culos, a popula\u00e7\u00e3o fosse numericamente constante dentro das muralhas. Quando a popula\u00e7\u00e3o cresce, \u00e9 prefer\u00edvel estabelecer novas cidades, em detrimento da expans\u00e3o do recinto fortificado, e \u00e9 por isso que a Idade M\u00e9dia \u00e9 not\u00e1vel na forma\u00e7\u00e3o de assentamentos. A constru\u00e7\u00e3o come\u00e7a sempre com o centro, com a pra\u00e7a, sendo o seu lugar fixado antes de mais nada. Uma segunda consequ\u00eancia importante da exist\u00eancia das muralhas: o centro permanece sempre o mesmo. Nessas comunidades, a pra\u00e7a est\u00e1, em princ\u00edpio, sobreposta ao centro geom\u00e9trico. Era o espa\u00e7o mais protegido e o s\u00edtio em que o inimigo chegava por \u00faltimo. Al\u00e9m disso, a entrada nas cidades \u00e9 feita apenas por alguns port\u00f5es. Automaticamente, todos os caminhos de entrada levam \u00e0 pra\u00e7a central. A perspetiva a\u00e9rea mostra que a pra\u00e7a \u00e9 o ponto focal da cidade medieval. As muralhas marcam visualmente, o mais claramente poss\u00edvel, a oposi\u00e7\u00e3o entre o centro e a periferia. Da\u00ed, outra consequ\u00eancia ao longo da evolu\u00e7\u00e3o: quando, no alvorecer da modernidade, as muralhas s\u00e3o demolidas, essas cidades tendem a desenvolver-se n\u00e3o linearmente, mas concentricamente, adicionando uma sequ\u00eancia de terreno a uma estrutura j\u00e1 existente, estrutura ainda vis\u00edvel em muitas cidades europeias de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Renascen\u00e7a, a Europa herda as cidades medievais, que j\u00e1 n\u00e3o ama e as quer completamente diferentes: dentro de limites constru\u00eddos, a Europa imagina outro tipo de mundos urbanos. Contudo, a \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 conhecida pela funda\u00e7\u00e3o de cidades verdadeiras, mas antes de cidades fict\u00edcias. No entanto, quando a teoria se transforma em pr\u00e1tica, acontece mais como resultado de certas calamidades. A 21 de setembro de 1561, um grande inc\u00eandio alastrou a cidade de Valladolid. O infort\u00fanio sofrido pela cidade \u00e9, para o urbanismo, uma verdadeira b\u00ean\u00e7\u00e3o. No lugar do espa\u00e7o vazio \u00e9 constru\u00edda a espl\u00eandida Plaza Mayor, at\u00e9 hoje uma das maiores pra\u00e7as de Espanha. \u00c9 a primeira pra\u00e7a regular da Europa, hoje, injustamente, t\u00e3o pouco conhecida. A sua simetria e o plano v\u00eam-se muito bem de cima. O padr\u00e3o arquitet\u00f3nico e urbano estabelecido em Valladolid \u00e9 adotado por muitas outras pra\u00e7as, atingindo a perfei\u00e7\u00e3o em 1729, com a Plaza Mayor de Salamanca, uma das pra\u00e7as mais bonitas do mundo. S\u00f3 pela fotografia a\u00e9rea podemos ver imediatamente que o per\u00edmetro da pra\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um quadrado, mas um trap\u00e9zio. Ao n\u00edvel dos olhos, a pra\u00e7a \u00e9 percebida por qualquer passante, sem exce\u00e7\u00e3o, como tendo lados perfeitamente paralelos e iguais: uma subtil ilus\u00e3o de \u00f3tica, cuidadosamente calculada para aprofundar a perspetiva e compensar o espa\u00e7o relativamente pequeno que o arquiteto teve \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir do s\u00e9culo XVI, ainda que continuem a ter fortifica\u00e7\u00f5es, as cidades s\u00e3o pensadas de forma diferente. A miss\u00e3o de desenhar planos urbanos passa cada vez mais das m\u00e3os do artista\/arquiteto para as m\u00e3os do engenheiro. O momento essencial de mudan\u00e7a d\u00e1-se no s\u00e9culo XVII e est\u00e1 ligado ao nome de Vauban. O tipo de fortifica\u00e7\u00e3o proposto por ele prev\u00ea o posicionamento de um grande n\u00famero de soldados dentro das maci\u00e7as muralhas da cidade. Os fortes em forma de estrela rapidamente se espalharam pela Europa, de Naarden e Bourtange, na Holanda, a Almeida em Portugal, ou Alba Carolina na Rom\u00e9nia. Essas cidades militares t\u00eam uma estrutura perfeita, com ruas retas e alinhadas, levando, obrigatoriamente, a uma grande pra\u00e7a, no centro. Do n\u00edvel do solo, a perfei\u00e7\u00e3o dos fortes apenas pode ser intu\u00edda, especialmente porque os edif\u00edcios s\u00e3o muitas vezes austeros. No entanto, s\u00e3o de longe os mais belos assentamentos do continente que podem ser hoje fotografados do alto do c\u00e9u, umas estrelas colocadas na Terra. Mais do que nunca, no caso dos fortes fica bem clara a import\u00e2ncia da pra\u00e7a como espa\u00e7o central.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de meados do s\u00e9culo XVIII e no s\u00e9culo XIX, as cidades reinventam-se de tal maneira, que refletem as mudan\u00e7as militares, tecnol\u00f3gicas, mas tamb\u00e9m pol\u00edticas. O poder aut\u00f3nomo das comunidades urbanas enfraquece gradualmente, at\u00e9 o ponto de diminuir totalmente, em favor da autocracia dos monarcas. Os monarcas trazem os soldados para a cidade e os soldados precisam de ruas retas. Para agir rapidamente, mas tamb\u00e9m para executar lindamente os seus desfiles. Os aristocratas vivem cada vez menos nos seus pal\u00e1cios no campo, por quererem estar o mais perto poss\u00edvel dos centros pol\u00edticos. Constroem as suas resid\u00eancias na cidade, que, com o tempo, se tornam nas suas resid\u00eancias principais. De repente, muitos deles ganham interesse pela apar\u00eancia da cidade. Qual a consequ\u00eancia disso? O plano da cidade muda radicalmente. Inevitavelmente, o papel das pra\u00e7as e a sua rela\u00e7\u00e3o com o resto do espa\u00e7o muda tamb\u00e9m. Se os antigos assentamentos medievais t\u00eam uma estrutura baseada nas necessidades de toda a comunidade, as cidades mudam de aspeto para atender ao gosto dos aristocratas. Na \u00e1rea da est\u00e9tica urbana ocorrem transforma\u00e7\u00f5es essenciais. Quando as ruas ficam retas, a perspetiva abre-se e as pessoas come\u00e7am a ver mais longe, para al\u00e9m da primeira curva. Daqui para a teoriza\u00e7\u00e3o da <em>vista<\/em> \u00e9 apenas um passo. A <em>vista<\/em>, desconhecida na antiguidade cl\u00e1ssica, pressup\u00f5e uma vis\u00e3o urban\u00edstica muito mais complexa: os monumentos e as est\u00e1tuas n\u00e3o devem ser vistos apenas de perto, atendendo ao facto de que s\u00e3o um ponto de refer\u00eancia mesmo quando est\u00e3o no final de uma rua cumprida que, sendo reta, permite que o olhar aviste a pra\u00e7a de uma grande dist\u00e2ncia. O que antes era um efeito aleat\u00f3rio, agora est\u00e1 a tornar-se um elemento de estudo. Os arcos triunfais, as colunas comemorativas, as est\u00e1tuas s\u00e3o constru\u00eddas de modo a serem bonitas mesmo de longe. Daqui aos eixos cerimoniais que ir\u00e3o cruzar as cidades, ligando as pra\u00e7as, \u00e9 s\u00f3 mais um passo. Lisboa, vista de cima, revela de relance as transforma\u00e7\u00f5es ocorridas, sob a coordena\u00e7\u00e3o do Marqu\u00eas de Pombal, ap\u00f3s o devastador terramoto de 1 de novembro de 1755. As pra\u00e7as de Lisboa s\u00e3o um verdadeiro sistema. Avenidas largas e alinhadas ligam a Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio ao Rossio, o Rossio \u00e0 Figueira, ao Martim Moniz e aos Restauradores, os Restauradores \u00e0 Pra\u00e7a do Marqu\u00eas de Pombal, e todas t\u00eam no meio monumentos impressionantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria das pra\u00e7as europeias est\u00e1 ligada por um fio hist\u00f3rico cont\u00ednuo \u00e0 antiguidade grega, onde aparece a plateia e depois a \u00e1gora. 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